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A saga de Lampião pela imprensa

Por Giovanni Rocha

A saga de Virgulino Ferreira, o temido Lampião, foi motivo de estudo da francesa Elise Grunspan-Jasmin. Ela apresenta como a imprensa, em especial os fotógrafos andarilhos do sertão nordestino, retratou e idealizou um dos principais “heróis” do folclore nacional. A história de Lampião e seu bando foi escrita na base do sangue e da pólvora, porém é inegável que o trabalho do fotojornalismo nesse cenário merecesse trabalhos de pesquisas como o de Elise.

Todas as informações abaixo foram publicadas no website do jornal O Povo do Ceará no dia 24 de julho.

O espelho de Lampião

Pedro Rocha
da Redação

A pesquisadora francesa Elise Grunspan-Jasmin analisa em entrevista ao O POVO a construção da imagem de Lampião através das fotografias publicadas na imprensa da época

O vulto de Lampião fazia rebuliço quando notícias anunciavam sua aproximação. Assim foi por mais de 20 anos, num enfrentamento aberto contra o poder de repressão estatal. Um enfrentamento que ganhou dimensões espetaculares na imprensa, principalmente através da publicação de fotografias. De um lado dessa disputa estavam cangaceiros e o próprio Lampião, que pousavam imponentes nas imagens ao mesmo tempo em que a captura do bando, pelas forças policiais, parecia impossível. Doutro, registros das volantes, de acordos governamentais e cangaceiros mortos.

A autora do livro Lampião – Senhor do Sertão (Edusp), a francesa Elise Grunspan-Jasmin, analisou as cerca de 200 fotografias relativas ao cangaço, reunidas em diferentes arquivos públicos e coleções privadas do Nordeste brasileiro, e escreve na entrevista abaixo por e-mail sobre a ascensão e queda do homem que já morreu mito.

O POVO – Que momento marca a entrada de Lampião na imprensa?
Elise Gruspan-Jasmin – Sua incorporação aos Batalhões Patrióticos, em 1926, marca o início de sua vida pública, sua ruptura definitiva com a sociedade do sertão, à qual não se reintegrará nunca mais, e, principalmente, a sedução de um enfrentamento com o Brasil inteiro por intermédio da imprensa. Foi, a partir de então, que instaurou-se um diálogo entre Lampião e interlocutores que ora eram seus admiradores, ora seus inimigos. A imprensa e a fotografia veiculam essa imagem de Lampião, o que, para a época, é extremamente inovador. O ano de 1926 registra uma virada na vida de Lampião. A incorporação de Lampião aos Batalhões Patrióticos devia, na verdade, ser seguida de uma anistia e da obtenção oficial da patente de capitão. Sabemos que não foi nada disso. As promessas não foram mantidas: ao sair de Juazeiro, Lampião continuava a ser um criminoso perseguido pelas forças policiais, e sua patente de capitão não tinha estritamente nenhum valor. Acho que foi depois do episódio de Juazeiro que Lampião tomou consciência da influência dos jornais sobre a construção da sua imagem, mas renunciou à relação direta com a imprensa. É a partir dessa traição que se constrói e se elabora a última imagem do cangaceiro Lampião, a de um homem que, descobrindo que não voltará a pertencer à sociedade do sertão, vai, doravante, enfrentá-la e desafiar o Brasil inteiro.

OP – Como esse momento se diferencia das fotos feitas dez anos depois por Benjamin Abrahão?
Elise – Em 1936, ele é o “Rei do Cangaço”, se deixa ver, se exibe no seu universo familiar. Ele não tem mais, desde muito tempo, a esperança de reintegrar à sociedade. As fotografias de Benjamin Abrahão testemunham da organização de uma vida com suas próprias leis, códigos, costumes. Lampião é, ao mesmo tempo, chefe de grupo e chefe de família e deixa parecer sobre as fotografias todos os momentos de uma vida que ele encenou. Nas fotografias feitas por Benjamin Abrahão, Lampião vai diferenciar-se: tomará distância em relação aos códigos tradicionais em vigor até então no cangaço, cuidando de sua aparência e organizando uma verdadeira cenografia entorno de sua pessoa e de sua atividade. Ele passa a cuidar dos detalhes de seu vestuário: imensos chapéus decorados com medalhas, correias recobertas com peças de ouro, fruto de suas pilhagens, alforjes bordados com cores soberbas, punhais imensos incrustados de pedras etc. Agora ele é reconhecível entre todos.

OP – Lampião tinha um senso estratégico e consciente do uso de sua imagem?
Elise – É uma questão muito delicada. Analizando a iconografia do cangaço, a gente não pode escapar a tentação de pensar que Lampião, de uma certa forma, instrumentalizou a fotografia para construir sua lenda e, até mais, fez da fotografia um dos elementos da sua manipulação das mídias. Eu, pessoalmente, acho que Lampião, certamente, sem instrumentalizá-la ou manipulá-la, entendeu o impacto que a fotografia podia ter na construção da sua personagem e na interação que ele podia ter com os seus adversários.

OP – Houve uma reação deliberada dos adversários? As fotos se diferenciam em que dos retratos de cangaceiros?
Elise – Na leitura dos jornais do litoral do Nordeste, assim como os do sul do País, fica evidente que a fotografia teve um papel considerável na demonstração de poder de cada um dos campos. Algumas fotografias representam as autoridades governamentais e policiais dos diferentes estados do Nordeste em reuniões estratégicas, conferências de imprensa ou jantares oficiais organizados nas diferentes capitais do Nordeste. A repressão do cangaço já não é mais unicamente um problema das volantes em ação no sertão. Essas imagens registradas na imprensa reforçam a idéia de uma participação ativa das personalidades políticas das grandes cidades do litoral na elaboração de planos de combate contra o cangaço. Visam contrabalançar a infinidade de artigos criticando o pouco envolvimento dos políticos das grandes cidades do litoral frente ao drama que sofria o sertão. Paralelamente às imagens de reuniões oficiais, aparecem nos jornais, a partir de 1935, fotografias que mostram oficiais ou soldados das forças volantes em campanha contra o cangaço no sertão. Os oficiais e soldados das volantes – particularmente os da força de Nazaré, inimigos irredutíveis de Lampião – são quase sempre retratados em uniforme de campanha. Seu traje, embora não seja ricamente enfeitado, assemelha-se, em diversos aspectos, ao dos cangaceiros, permitindo identificar a região de onde provêm os personagens e os códigos de identificação das roupas dos combatentes. Esse tipo de fotografia foi privilegiado na imprensa da época até a morte de Lampião, por reposicionar a relação de forças entre Lampião e seus adversários em um contexto regional claramente determinado.

OP – Nessa disputa, o que representa a famosa foto das cabeças decapitadas em Angicos?
Elise – Foi nessa ocasião que a encenação e a iconografia macabra do cangaço teve seu auge. Em uma espécie de resposta à alegação de poder e invulnerabilidade do célebre cangaceiro, decapitaram-no e exibiram sua cabeça e a de seus companheiros como troféus, a fim de mostrar aos olhos do mundo que esse corpo fechado, impermeável às balas e às facas, podia ser fragmentado. Essa fotografia, exibindo numa encenação elaborada, cadáveres profanados e mutilados, coloca o público diante de uma violência que desperta a sensação de ausência de limites. Tudo parece ser permitido, em uma espécie de derrapagem descontrolada. A imagem aqui é destituída de seu poder de sacralização do sujeito, e não passa de um objeto difamador, que sugere exclusão, uma despossessão post-mortem.

OP – Quais as interpretações que podemos fazer a partir dessa “encenação elaborada” a qual você se referiu?
Elise – A fotografia das 11 cabeças cortadas revela uma composição bastante elaborada. As cabeças dos 11 cangaceiros mortos em Angicos pela volante de João Bezerra foram dispostas sobre um lençol branco, estendido sobre os degraus da igreja de Santana do Ipanema. Em torno dessas cabeças estão distribuídas, em cuidadosa simetria, armas, cartucheiras, bornais e chapéus dos cangaceiros, além de duas máquinas de costura. A disposição das cabeças não é aleatória: a de Lampião foi isolada das demais, e aparece em primeiro plano, na base da composição, como para dizer que Lampião – o chefe, o instigador, o arquiteto, o rei do cangaço – agora estava reduzido ao comando de um grupo de cabeças decepadas. Em segundo plano, logo acima da cabeça de Lampião, encontra-se a de Maria Bonita, entre as de Quinta-Feira e Luís Pedro. As cabeças dos outros cangaceiros foram colocadas mais acima: são as de Mergulhão, Elétrico e Caixa de Fósforo. No topo estão as cabeças de Adília, Cajarana, um desconhecido e Diferente. Todas estão etiquetadas e exibem o nome de cada cangaceiro. Os símbolos da riqueza e da força guerreira dos cangaceiros estão presentes, compondo o fundo de uma natureza-morta macabra. Esses detalhes – bordados, ornamentos, peças de ouro – sugerindo brilho, luminosidade que se perdeu para sempre, contrastam violentamente com as cabeças cortadas, remetendo o observador, inapelavelmente, ao ato de decapitação e à profanação dos cadáveres.

Conheça o site do jornal no endereço www.opovo.com.br

Emerson Machado expõe trabalho no hospital São Pedro

Crédito Emerson Machado

A exposição apresenta o registro fotográfico que resultou do trabalho desenvolvido por Emerson Machado para a disciplina de Projeto Experimental em Fotografia, do curso de Jornalismo, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, sobre a tutoria da Professora Jacqueline Joner.

O tema principal é a arquitetura do Hospital Psiquiátrico São Pedro. No mês de setembro de 2007, foram realizados a pesquisa e reconhecimento do local e, em outubro, foram captadas as imagens. No mês de novembro, foi feita edição das 750 imagens captadas. Ao final do trabalho, 25 imagens foram selecionadas para montagem de um portifólio final de apresentação. São ampliações de 30×40cm , aplicadas em passpartout preto duplo. As fotos vão estar suspensas em biombos do hospital, dispostas no corredor do Serviço de Memória Cultural do HPSP.

As fotografias buscam fazer uma releitura no espaço arquitetônico em sua amplitude, com planos abertos, portas, janelas e detalhes. Todas seguem uma linguagem, um conceito, que foram desenvolvidos no mês de setembro nos encontros de orientação com a tutora. O azul e o preto dominam os tons da mostra, buscando um olhar autoral para o trabalho. O autor também traz à sociedade a reflexão sobre a loucura e o que pode ser feito para melhorar a situação das pessoas que necessitam de auxílio psiquiátrico.

Serviço:

O que: Mostra Fotográfica “Rastros e Sombras” Olhares sobre a arquitetura do Hospital Psiquiátrico São Pedro, do fotógrafo Emerson Machado

Onde: Serviço de Memória Cultural do HPSP – Bento Gonçalves 2460, Partenon – POA

Quando: 25 de junho, às 10h

Período de visitação: de 25 de junho a 25 julho, das 9h às 12h.
Entrada franca

Última semana para conferir a exposição World Press Photo em SP

Exposição apresenta cerca de 200 fotos premiadas

 

 

Vai até o próximo domingo, em São Paulo (SP), a exposição com o melhor do fotojornalismo mundial. A mostra World Press Photo apresenta cerca de 200 fotos premiadas pela World Press Photo, entidade com sede na Holanda, cujo objetivo é apoiar fotojornalistas e estimular o desenvolvimento do fotojornalismo.

 

A exposição pode ser visitada de terça a sábado, das 10h às 20h, e no domingos, das 10h às 19h, com entrada gratuita. O Sesc Pompéia fica na rua Clélia, 93, no bairro da Pompéia, zona oeste da capital paulista.

 

Sorte do povo que vai poder conferir. Quem, como eu, não poderá visitar pode conhecer um pouco do trabalho no site da instituição: www.worldpressphoto.org.

 

 * Com informações do site www.jornalirismo.com.br e foto de www.artewebbrasil.com.br

 

A síndrome Vietnam

 

 

A palavra Vietnam é uma daquelas que dispara imagens na imaginação de qualquer pessoa que conheça um pouco da história contemporânea. Muitos filmes sobre a  invasão norte-americana foram produzidos, porém, atualmente, a pauta parece ter esfriado. Talvez pelo novo agendamento chamado Iraque. Descobrir que o Vietnam produzia arroz, e não armas de destruição em massa, deve ter contribuído para os estúdios de Hollywood pararem de produzir suas obras sobre o país asiático.

 

Engana-se quem pensa que tudo foi superado. As conseqüências do Agente Laranja, verdadeira arma de destruição em massa estadunidense, continuam no sangue de vietnamitas e norte-americanos, descendentes de veteranos da guerra.

 

Em um trabalho fantástico do fotógrafo James Nachtwey, para a revista Vanity Fair, se conhece como atualmente vivem essas pessoas, que ainda carregam as chagas de mais uma guerra sem justificativa.

 

The Vietnam Syndrome, por James Nachtwey

A foto de 2007

Tim Hetherington

O World Press Photo já tem a sua vencedora do ano de 2007. Seguindo a linha de imagens dramáticas, realizadas em locais de conflito ou desastres naturais, a fotografia do britânico Tim Hetherington, feita em setembro no Afeganistão, faturou o prêmio de melhor foto do ano. 

Na imagem, um soldado do 2º batalhão aéreo americano aparece exausto em um bunker, localizado em uma zona de intensas batalhas do país.  

“Essa imagem mostra a exaustão de um homem e a exaustão de uma nação. Nós todos estamos conectados a isso.”, justificou o júri a respeito da foto. 

A foto de Hetherington faz parte de uma seqüência que ganharam também o segundo lugar na categoria “General News Stories”. O fotógrafo clicou para a revista norte-americana Vanity Fair. 

O fotógrafo leva um prêmio no valor de 10 mil Euros (28 mil reais aproximadamente) e a câmera xodó de qualquer fotojornalista, uma Canon EOS-1Ds Mark III, com 21 megapixels, avaliada em 8 mil dólares. 

Links:

 World Press Photo 

Tim Hetherington 

Vanity Fair – Artigo onde foram publicas as fotos de Hetherington 

Canon EOS-1Ds Mark III – overview