A febre amarela da Folha de São Paulo

janeiro 28, 2008

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Desde o começo dos ataques dos mosquitos “terroristas” da febre amarela eu me questionava se a grande imprensa nacional estava fazendo um bom trabalho sobre o assunto. Sinceramente, acho que não. Creio que o serviço de informação é legítimo, mas estampar o assunto quase como uma epidemia nacional, me parece já estar passando dos limites. Chego a acreditar que as tragédias “comuns”, como acidentes de trânsito, balas perdidas, latrocínios e outras barbáries já começam a se tornar comum entre os leitores, e, logo, um novo inimigo deve ser agendado. Pode parecer exagero, mas está quase igual às ameaças do partido do Grande Irmão, no fabuloso 1984 de George Orwell. O jornalismo tem um nome bem legal para isso. Agendamento, ou seja, a mídia determina a pauta para a opinião pública ao destacar determinados temas e preterir, ofuscar ou ignorar outros tantos. 

Cito esse assunto devido à coluna que o ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, publicou no domingo, dia 27 de janeiro. Para quem não sabe o que é um ombudsman, segue abaixo a definição do próprio jornal sobre esse profissional: “Mário Magalhães é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2007. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.” 

Eu acho legal que um meio de comunicação destine espaço para uma pessoa, de dentro mesmo, para criticá-lo. Por mais que ombudsman seja sempre um ser controverso, ele é o cara que serve para auxiliar leitores e redação a ver que nem tudo que está nas páginas, nas telas ou nas ondas do rádio são sempre verdade, ou, realidade. Segue abaixo a coluna. Muitos outros veículos alarmaram, mas acho que o exemplo da Folha serve para observarmos um certo descontrole da mídia a respeito do assunto.Digitalizei um quadro interessante que só está na versão impressa. Boa leitura.  

Jornalismo febril – Folha de São Paulo – 28 de janeiro de 2008 

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Não cabe ao jornalismo sabujar autoridades, mas não é seu papel alarmar; o tom predominante foi o de escalada

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Se crianças começam a assuntar sobre a vacinação contra a febre amarela, é sinal de que o temor da doença -e da injeção- se disseminou.Não é para menos: no princípio do ano, parcela expressiva do jornalismo sugeriu que o mal ameaça o país. A Folha não ficou de fora. Como se vê ao lado, do dia 8 até a quinta-feira passada o assunto ganhou espaço na primeira página, 14 presenças em 17 dias.

Há mesmo interesse público em saber que houve contaminação em áreas rurais. A morte em decorrência de picada de mosquito na floresta é tão trágica como a de alguém infectado nas cidades. Acontece que desde 1942 não se conhece no Brasil transmissão de febre amarela em reduto urbano. A informação foi veiculada, mas o tom predominante, mostram os títulos da capa, foi o de escalada.Sob uma manchete, o jornal relativizou a opinião do ministro da Saúde: “No dia em que o número de notificações de casos suspeitos de febre amarela no país subiu de 15 para 24, (…) José Gomes Temporão foi à TV fazer um pronunciamento (…) para dizer que não há risco de epidemia”. 

Não cabe ao jornalismo sabujar autoridades, mas não é seu papel alarmar. Quando consultou quem entende, a Folha prestou bons serviços.Na contramão de leigos que proclamavam a urgência de imunização universal, infectologistas a condenaram.Até a quinta, contavam-se dez mortos por febre amarela silvestre, desde 30 de dezembro. Todos a teriam contraído na mata de Goiás. O exagero da Folha em 2008 contrasta com outro, o de 2001, quando os 22 óbitos se concentraram no primeiro trimestre. Em nenhum dia daquele ano a primeira página se referiu à moléstia.Em março, notinha de rodapé com oito linhas noticiou: “Morre a 15ª vítima da febre amarela”. Outra nota anunciara semanas antes as 39 mortes do ano anterior (mais uma se somaria à estatística).Os registros não trouxeram a opinião do então ministro da Saúde, José Serra. Em 2000, nenhum título da capa falou em morte pela doença. 

A Redação discorda: “Os números dos anos recentes justificam a cobertura que a Folha vem dando à febre amarela. Em 2004 e 2005, houve três mortes confirmadas em cada ano; em 2006, foram duas mortes; em 2007, cinco”.“Em 2008, apenas no primeiro mês do ano, já há dez mortes confirmadas (uma delas ocorrida em 30 de dezembro, mas só confirmada agora). Acresce que a Folha tem dado amplo espaço a autoridades e especialistas, com diferentes visões sobre a dimensão do problema. E a única manchete relativa ao tema tratou do pronunciamento do ministro da Saúde em que ele procurava tranqüilizar a população.” 

Não entendi por que os números de 2000 e 2001 não “justificaram” destaque. Sobre isso, minhas perguntas não mereceram respostas.

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