Rédea Solta – Parte 1

junho 30, 2008

Giovanni Rocha
Um dia no trabalho e na vida de um carroceiro para compreender que a solução está além do discurso comum

Textos: Fábio Almeida e Giovanni Rocha

Fotos: Giovanni Rocha

Teófilo escova o pêlo do cavalo, coloca os arreios e prepara a carroça quando a voz preocupada da sua esposa o interrompe. “Teófilo, acho que o Hulk morreu!” O homem de barba e cabelos compridos, conhecido pelos amigos como “Bin Lade”, devido à semelhança física com o terrorista Osama Bin Laden, enruga a testa, abaixa a aba do boné surrado que o protege do sol forte de uma tarde quente de março e pergunta à mulher o motivo da morte. Num diagnóstico rápido e duvidoso, com a voz engasgada, ela responde que o problema foi o coração. Hulk era o cachorro da raça “policial” da família, tinha perto de 13 anos, calcula o dono, Teófilo Rodrigues Motta, 37 anos.

Ele avisa um dos filhos que enterrará Hulk depois que voltar para casa, no início da noite. Mas até lá, ainda há muito trabalho. Teófilo é carroceiro e se prepara para mais uma viagem entre a Ilha Grande dos Marinheiros, um aglomerado de casebres na Zona Norte de Porto Alegre e o centro da capital. Na saída da ilha, entre os becos estreitos e embarrados, se percebe que a maioria das famílias que mora no local vive da reciclagem do lixo recolhido pelas carroças. São vários desses veículos nos pátios, na rua e nas varandas de alguns galpões. Entre um aceno de boa tarde e outro cumprimento, Teófilo conta a sua história, os problemas na Ilha e da vida como carroceiro, um trabalho que, segundo ele, sempre foi discriminado, pela sociedade movida a petróleo. Residindo há oito anos na Ilha e percebendo os problemas dos outros carroceiros do local, ele criou a Ascarpoa, a Associação dos Carroceiros de Porto Alegre.

A velha suspensão e os buracos da vila fazem a carroça balançar. O banco, feito de uma tábua serrada pelo vizinho, momentos antes da saída, pode parecer um pouco desconfortável para quem é acostumado com os bancos forrados dos carros é ônibus. Porém, parece não incomodar o carroceiro, acostumado com o trote do cavalo e a andar em pé na carroça. O desconforto desaparece quando o vento bate no rosto, lembrando a primeira vez que se anda de bicicleta.

Enquanto segue em direção ao centro da cidade, onde também fará o recolhimento do material reciclável, Teófilo comenta sobre o lugar em que vive. “Na verdade isso é uma grande invasão. Aqui não temos, muitas vezes, como comprovar endereço. Mas eu consegui fazer crediário em uma loja, as Casas Bahia. Então, quando algum vizinho precisa de algo eu vou lá e compro em meu nome. Nunca deu problema. Todo mundo paga direitinho. Nem me preocupo”, comenta.

A carroça pára por instantes as margens da BR-290. Teófilo olha atento, calcula o arranque do cavalo e entra rápido na rodovia que dá acesso a Porto Alegre. Um boné azul serve como sinaleira para indicar a manobra aos motoristas. “Essa é a rotina. Todo o dia é assim”, comenta depois de um caminhão passar ao lado da carroça buzinando.

* Reportagem publicada na revista Primeira Impressão, produzida por alunos da disciplina de Projeto Experimental em Revista, do curso de jornalismo da Unisinos (RS). Junho de 2008.

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2 Respostas to “Rédea Solta – Parte 1”

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